Como aprender a tomar partido com a Uber, a Netflix e os atores de Hollywood

Uma análise de atitudes recentes de empresas e artistas para colocar em prática na sua carreira

Assédio sexual. Expressão pesada essa, que remete a muita coisa ruim. Mas tranquilize-se: este artigo não é sobre este tema especificamente, mas sobre algo que surgiu a partir de uma série de casos de denúncia. Eu prometo: no fim deste artigo, você vai conseguir refletir sobre a sua empresa e o seu posicionamento como empreendedor ou influenciador.

Você já deve ter ouvido falar de um tal de Harvey Weinstein e do ator Kevin Spacey em notícias recentes, certo? Em resumo, o produtor magnata de Hollywood e o ator da série House of Cards, respectivamente, foram acusados de assédio sexual – e muitos outros crimes ou conduta imprópria. Quase imediatamente, a empresa The Weinstein Company demitiu o produtor, mesmo ele sendo um de seus proprietários (é possível que a empresa mude até mesmo de nome). No mesmo período, a Netflix demitiu Spacey, astro de sua série, arriscando perder milhões de dólares já gastos na produção de uma temporada nova que não será sequer lançada.

Ok… mas o que isso tem a ver com a sua marca?

Vamos chegar lá. Antes disso, é importante lembrar que a Uber também sofreu recentemente com acusações de assédio sexual de motoristas, chegando a ser criticada por tomar atitudes insatisfatórias em relação a eles.

Junto com isso, estas três empresas se manifestaram fortemente contra este tipo de conduta – ainda que a Uber tenha, aparentemente, tomado mais tempo para fazer isso. O objetivo, como podemos imaginar, é fortalecer a marca e evitar que o público associe a empresa a acontecimentos tão negativos. Note, por exemplo, que a Netflix prefere perder faturamento a perder valor de marca – algo muito sábio da parte deles!

Assim como podemos ver nesta matéria do Meio & Mensagem, é o contexto da conexão entre pessoas e marcas que faz com que haja cada vez mais exigência do público para que as empresas tomem partido.

Já se foi o tempo em que as empresas podiam “fazer de conta que nada aconteceu”. Já se foi o tempo em que marcas podiam “desviar o olhar do público”. Já não vivemos a época em que é possível “varrer a sujeira para debaixo do tapete”.

E se isso já não é mais possível para grandes marcas… imagine para quem está empreendendo na internet e sofrendo todas as cores e dissabores desta vida!

Mas e os atores de Hollywood?

Repare só na diferença entre alguns atores citados sobre os casos de assédio sexual:

De um lado, atrizes pioneiras nas denúncias vêm falando sobre isso há muito tempo. Algumas arriscaram suas carreiras. Outras sequer conquistaram uma carreira duradoura justamente porque se recusaram a ficar caladas. Você sente a sinceridade do discurso delas.

Alguns atores, ainda que munidos de boa vontade, acabam caindo em contradição. Sempre souberam de casos parecidos, tiveram acesso a informações prévias ou até mesmo foram acusados de condutas impróprias, e acabam soltando declarações com algum posicionamento que claramente só foi criado porque se sentiram na pressão de “tomar uma atitude”.

A verdadeira lição: saiba quem você é e se aproprie dos seus valores!

Tudo bem, pode ser que o tema “assédio sexual” não faça parte da sua realidade. Mas você percebeu o que esse caso pode te ensinar muito sobre quando e como se posicionar?

Primeiro, é preciso saber quais são seus valores. O que é importante para você? Que quesitos são fundamentais? O que te move? Qual o papel do seu trabalho no mundo atual, ou seja, como você se encaixa no “zeitgeist” (para entender melhor essa palavra difícil, veja este vídeo)?

É claro que você não precisa se posicionar sobre tudo. Não precisa dizer sua posição política, ou quem terá seu voto nas próximas eleições (mas se quiser, sustente a opinião e saiba qual seu público – e veja este outro vídeo). Mas em determinados momentos, você terá que mostrar uma posição, e nessas horas é preciso ter coragem, em vez de tentar colocar panos quentes ou demorar a dar uma resposta. E mais importante: não finja que pensa de uma forma apenas para agradar a um público, e seja honesto quanto à sua manifestação.

Vamos dar um exemplo de algo que ocorreu recentemente com uma empresa – cujo nome não será citado, já que não é algo que foi a público. Esta empresa teve problemas relacionados ao público transgênero, o que gerou diversas reclamações. A empresa foi extremamente honesta e admitiu que não sabia como lidar com isso, já que se trata de algo muito novo na nossa sociedade, que felizmente está cada vez mais aberta à diversidade. O que eles fizeram? Procuraram uma consultoria especializada na temática e tomaram as atitudes que lhes foram indicadas por esses consultores. Assim, eles se melhoraram e mudaram algumas de suas diretrizes.

A pergunta mais importante é:

Quem você quer ser? O ator de Hollywood que foi forçado a fazer uma declaração porque “todos estão fazendo” ou a atriz que tomou partido de uma causa? Você quer ser a Netflix, que tomou uma atitude assim que soube dos problemas, ou a Uber, que precisou ser duramente criticada?

Quando falamos aqui no blog sobre “se melhorar”, isso significa estar de olho no mundo e ser proativo em relação aos problemas dele. Não adianta mais querer “fingir ser legal”… é preciso “ser definitivamente legal”, ou pelo menos mostrar que você está tentando fazer isso.

Ninguém é perfeito. Mas existe uma grande diferença entre quem acha que não precisa mudar nada e quem se preocupa em evoluir e contribuir com um mundo melhor. E para isso, é preciso coragem para assumir algum lado quando necessário.